
O presidente Donald Trump sofreu uma das maiores derrotas políticas de seu segundo mandato. Nas eleições de meio de mandato realizadas na terça-feira (3), os democratas conquistaram o controle da Câmara dos Representantes e do Senado dos Estados Unidos, encerrando a maioria republicana nas duas casas do Congresso. O resultado representa um forte recado dos eleitores à administração da Casa Branca e abre uma nova fase de enfrentamento político em Washington.

A dimensão da derrota ficou evidente em estados historicamente conservadores, conhecidos por sua identificação com o Partido Republicano, cuja cor é o vermelho. Texas, Kansas, Carolina do Sul, Iowa e Ohio estiveram entre os territórios em que os democratas conquistaram vitórias expressivas. No Texas, a vitória democrata para o Senado federal encerrou uma sequência de quase quatro décadas sem que o partido elegesse um representante para a cadeira. No Kansas, os democratas também alcançaram um resultado histórico.
A mudança no Congresso terá consequências diretas para o restante do governo Trump. Com maioria nas duas casas, a oposição passa a ter mais poder para barrar projetos, dificultar nomeações, convocar autoridades e abrir investigações sobre a administração federal. O presidente continua no cargo e mantém seus poderes executivos, mas terá de governar diante de um Legislativo muito menos favorável às suas decisões.
CUSTO DE VIDA E GUERRA CONTRA O IRÃ
Entre os principais fatores apontados para a derrota republicana está a insatisfação com a economia. O aumento do custo de vida, o encarecimento de produtos e a dificuldade de muitas famílias para equilibrar o orçamento ganharam peso na decisão dos eleitores. A política tarifária adotada por Trump também entrou no centro das críticas, diante dos efeitos sobre os preços de produtos importados.

A guerra contra o Irã ampliou o desgaste. O conflito e o fechamento do Estreito de Ormuz contribuíram para pressionar os preços internacionais de petróleo e combustíveis, com reflexos sobre a gasolina e o diesel nos Estados Unidos. Segundo pesquisa de boca de urna divulgada pela NBC News, 63% dos entrevistados consideraram equivocada a decisão americana de iniciar uma ação militar contra o país persa.
O levantamento também mostrou uma avaliação negativa da política econômica presidencial: 65% dos eleitores ouvidos disseram que as medidas de Trump pioraram a economia, enquanto 62% atribuíram ao presidente responsabilidade pelos preços elevados. A política de imigração também enfrentou resistência, com 57% dos entrevistados avaliando que as medidas adotadas pelo governo foram longe demais.
DENÚNCIAS DE CORRUPÇÃO E DESGASTE POLÍTICO
Outro elemento que contribuiu para o desgaste republicano foram as denúncias envolvendo os negócios da família Trump e possíveis conflitos de interesse na administração federal. Reportagens de veículos como The New York Times e The Washington Post investigaram relações comerciais, contratos e o uso da influência política por integrantes da família presidencial.
O professor de história James N. Green, da Universidade Brown, ouvido pela Agência Brasil, avaliou que a derrota foi muito maior do que a esperada pelos republicanos. Para ele, a insatisfação com possíveis benefícios econômicos obtidos pela família presidencial por meio de sua influência política ganhou importância durante a campanha.
A professora de relações internacionais Camila Vidal, da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), também apontou uma frustração entre eleitores que esperavam uma administração mais concentrada nos problemas internos do país. Segundo sua avaliação, parte da população aguardava respostas para dificuldades materiais, especialmente o custo de vida e os gastos elevados com serviços essenciais, como saúde.

UM RECADO PARA A DIREITA INTERNACIONAL
A derrota republicana também repercute fora dos Estados Unidos. Para o professor de direito internacional da Universidade de São Paulo (USP), Paulo Borba Casella, o resultado representa um sinal de desgaste de governos associados a políticas autoritárias e a medidas que entram em conflito com direitos e liberdades fundamentais.
O resultado, entretanto, não significa o encerramento imediato do governo Trump nem uma mudança automática na política externa americana. O presidente permanece na Casa Branca até o fim do mandato, mas a perda das duas maiorias legislativas reduz sua margem de articulação e amplia a capacidade de fiscalização da oposição.
As eleições de meio de mandato costumam funcionar como uma avaliação do governo em exercício. Desta vez, o recado foi particularmente contundente: mesmo em estados que tradicionalmente apoiam os republicanos, uma parcela expressiva do eleitorado decidiu retirar do partido o controle do Congresso. Para Trump, o desafio agora será enfrentar os próximos dois anos com uma oposição fortalecida e uma base política submetida a um dos maiores reveses eleitorais de sua trajetória.