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“Você não precisa chegar ao fundo do poço”: psicóloga castilhense alerta para o sofrimento silencioso que avança na região

Profissional aponta aumento de ansiedade, sobrecarga feminina e dificuldades emocionais entre adolescentes — e reforça: pedir ajuda não é fraqueza, é necessidade.

Ygor Andrade
Por: Ygor Andrade Fonte: DA REDAÇÃO
01/04/2026 às 14h43 Atualizada em 01/04/2026 às 17h08
“Você não precisa chegar ao fundo do poço”: psicóloga castilhense alerta para o sofrimento silencioso que avança na região
FOTO: DIVULGAÇÃO

“Você não precisa dar conta de tudo sozinho.”

A frase pode parecer simples, mas carrega um diagnóstico que se repete cada vez mais nos atendimentos psicológicos: pessoas cansadas, sobrecarregadas e tentando sustentar dores que já ultrapassaram o limite. É esse cenário que a psicóloga castilhense Raquel Gregolin observa no cotidiano profissional, ao identificar um padrão que se repete, sobretudo entre mulheres e adolescentes da região.

Antes da escuta técnica, existe a trajetória. Raquel se define como uma mulher atravessada por múltiplos papéis — esposa, filha, irmã, amiga e serva — entendendo que cada um deles compõe quem ela é. A escolha pela psicologia começou ainda no ensino médio, quando a disciplina despertou interesse imediato. Ao mesmo tempo, a prática já acontecia de forma espontânea: colegas buscavam conversa, dividiam conflitos e pediam orientação. O que parecia natural ganhou direção.

O caminho até a formação, no entanto, não foi direto. Sem condições financeiras para iniciar o curso desejado, ela ingressou em Administração. A mudança veio após uma conversa decisiva no ambiente de trabalho. Ao descobrirem a escolha, gestores questionaram a decisão e incentivaram o retorno ao plano original. Uma oportunidade viabilizou financeiramente a transição. Pouco tempo depois, já estava matriculada em Psicologia. Anos mais tarde, se tornaria a primeira neta da família a concluir o ensino superior.

Hoje, no consultório, a realidade que chega até ela, revela um padrão claro. Mulheres aparecem marcadas pela sobrecarga — resultado da soma de responsabilidades que se acumulam sem espaço para elaboração emocional. Entre adolescentes, surgem conflitos próprios da fase, intensificados por uma rotina acelerada e exigente.

“Estamos vivendo uma rotina que não para. Isso faz com que as pessoas se sintam um pouco de tudo: cansadas, ansiosas e perdidas ao mesmo tempo”, afirma.

Nesse contexto, um dos principais desafios é o reconhecimento do próprio sofrimento. Existe uma dor silenciosa, que o corpo já manifesta, mas que ainda encontra resistência em ser aceita. A dificuldade em pedir ajuda faz com que muitos avancem no desgaste emocional sem perceber o ponto de ruptura.

Os sinais, segundo a profissional, costumam ser claros, ainda que ignorados: sensação de vazio, irritabilidade frequente, baixa autoestima, pensamentos negativos recorrentes, isolamento social e alterações no sono. Mesmo assim, persiste um comportamento comum: a tentativa de resolver tudo sozinho. A ideia de que é preciso dar conta ou de que a terapia é destinada apenas a casos extremos ainda afasta muitas pessoas do cuidado necessário.

“A psicologia é um espaço de encontro com a própria história”, resume.

Esse distanciamento é ainda mais evidente em cidades do interior, onde o preconceito se mantém, mesmo que de forma mais sutil. Medo, receio e dificuldade de confiar continuam presentes. Ao mesmo tempo, cresce o número de afastamentos do trabalho por questões relacionadas à saúde mental, além da naturalização de violências psicológicas no cotidiano — sinais de um adoecimento que avança sem enfrentamento proporcional.

Diante desse cenário, a orientação rompe com uma lógica recorrente: não é preciso esperar o colapso para buscar ajuda.

“Você não precisa estar no fundo do poço. Se algo não está bem, já é motivo suficiente”, afirma.

A mensagem final confronta diretamente o comportamento que mais se repete: adiar o cuidado, minimizar sinais e esperar que o tempo resolva. Na prática, essa escolha costuma ampliar o problema. E, quando a ajuda chega tarde, o custo emocional já se tornou mais alto do que deveria.

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