Março reforça alerta: tabagismo é doença crônica e exige tratamento estruturado
Programa multidisciplinar amplia taxas de sucesso e revela impactos além do pulmão
Por: Ygor AndradeFonte: DA REDAÇÃO
20/03/2026 às 16h21Atualizada em 20/03/2026 às 16h51
FOTO: YGOR ANDRADE
Fonte: Redação
Março, mês dedicado à conscientização sobre o tabagismo, reforça um alerta que ainda enfrenta resistência social: fumar não é apenas um hábito, mas uma doença crônica com impactos progressivos e potencialmente fatais. Em um cenário de ampliação do consumo por meio de dispositivos eletrônicos e novas formas de uso, especialistas destacam a urgência de informação qualificada e estratégias eficazes de combate ao vício.
FOTO: MARCELLO CASAL JR. / AGÊNCIA BRASIL
A médica intensivista e pneumologista Dra. Vanessa Lima explica que o tabagismo vai além do comportamento individual e envolve um conjunto complexo de dependências.
“Tabagismo é uma doença crônica. Ele envolve dependência química, que atua em receptores do cérebro, e também uma conexão emocional com o prazer e a redução da ansiedade”, afirma. A nicotina, substância central nesse processo, atua diretamente no sistema neurológico, criando ciclos rápidos de recompensa e necessidade.
Segundo a especialista, a velocidade de ação da nicotina é um dos fatores que tornam o vício tão difícil de ser interrompido.
“A ação da nicotina no cérebro é mais rápida do que a cocaína. Em segundos, ela já provoca resposta neurológica”, destaca. Esse mecanismo faz com que o organismo passe a exigir doses cada vez maiores em intervalos menores, consolidando a dependência.
Os efeitos do tabagismo, no entanto, não se limitam ao sistema respiratório. A médica alerta para uma série de consequências sistêmicas, que incluem doenças cardiovasculares, inflamações crônicas e diferentes tipos de câncer.
A especialista destaca a nicotina como potencializador cancerígino e alerta para outras doenças. - Foto: Ygor Andrade
“O risco de câncer aumenta em até 20 vezes, podendo atingir diversos órgãos. Além disso, há mais infartos, AVCs, dores persistentes e infecções”, explica. O impacto também atinge o sono, a disposição física e a recuperação do organismo.
A falsa sensação de segurança associada a alternativas como cigarros eletrônicos e narguilé também preocupa.
“É tudo a mesma coisa, só que maquiado. A indústria utiliza sabores e aromas para facilitar o consumo, principalmente entre jovens”, afirma. A concentração de nicotina nesses dispositivos pode ser superior à do cigarro tradicional, antecipando o surgimento de doenças e intensificando a dependência.
Diante desse quadro, o tratamento do tabagismo exige abordagem estruturada e acompanhamento contínuo. A especialista coordena um programa multidisciplinar que reúne suporte médico, psicológico e nutricional, com foco na mudança de comportamento e no enfrentamento da abstinência.
“Não é falta de força de vontade. É estratégia. Quando o paciente fica sozinho, a chance de recaída é muito alta”, pontua. Os três primeiros meses são considerados decisivos no processo.
Vanessa Lima é médica pneumologista e atua diretamente com pacientes contra o vício do tabagismo. Foto: Arquivo pessoal
Na prática, esse modelo de cuidado integrado tem mostrado resultados consistentes ao oferecer ao paciente um caminho possível, sem rupturas abruptas ou isolamento. O acompanhamento próximo de diferentes profissionais permite ajustar condutas, acolher recaídas e transformar a experiência de parar de fumar em um processo gradual de reconstrução. Ao invés de “quebrar” o indivíduo diante da abstinência, a proposta é reorganizar hábitos, fortalecer a autonomia e ressignificar a relação com o próprio corpo e com as escolhas diárias.
A interrupção do uso do cigarro também envolve um componente emocional significativo, comparado a um processo de luto.
“Quando você para de fumar, você entra em luto. É um ano de reaprendizado em diferentes momentos da vida”, explica. Ainda assim, os resultados tendem a ser rápidos, com melhora no paladar, no sono, na disposição e na autoestima. “Ressignificar é a palavra. O paciente retoma decisões, ganha autonomia e qualidade de vida”, conclui.
* O conteúdo de cada comentário é de responsabilidade de quem realizá-lo. Nos reservamos ao direito de reprovar ou eliminar comentários em desacordo com o propósito do site ou que contenham palavras ofensivas.