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Hospital Regional realiza primeira cirurgia cerebral pelo SUS para tratar Parkinson em MS

Procedimento de alta complexidade feito em Três Lagoas pode reduzir em até 80% o uso de medicamentos e ampliar qualidade de vida dos pacientes

Ygor Andrade
Por: Ygor Andrade Fonte: ASSESSORIA INSTITUTO ACQUA
14/03/2026 às 13h04
Hospital Regional realiza primeira cirurgia cerebral pelo SUS para tratar Parkinson em MS
FOTO: ARIANE PONTES / DIVULGAÇÃO

Fonte: Ariane Pontes / Assessoria Instituto Acqua

O Hospital Regional da Costa Leste Magid Thomé, em Três Lagoas, realizou a primeira cirurgia de estimulação cerebral profunda pelo Sistema Único de Saúde (SUS) em Mato Grosso do Sul para tratamento da doença de Parkinson. O procedimento, considerado de alta complexidade, representa um avanço no acesso da população a terapias especializadas na rede pública estadual.

A cirurgia foi realizada neste mês na unidade hospitalar administrada pelo Instituto Acqua em parceria com a Secretaria de Estado de Saúde (SES). A técnica consiste no implante de eletrodos em áreas profundas do cérebro responsáveis pelo controle dos movimentos e pode reduzir em até 80% a necessidade de medicamentos, além de melhorar significativamente a mobilidade e a qualidade de vida de pacientes em estágios mais avançados da doença.

O primeiro paciente a passar pelo procedimento na rede pública estadual foi o servidor público aposentado Gilberto Barbieri, de 58 anos, morador de Nova Andradina, município localizado a cerca de 260 quilômetros de Três Lagoas. Ele convive com a doença há aproximadamente 15 anos. Os primeiros sintomas surgiram com tremores nas mãos e, ao longo do tempo, evoluíram para limitações motoras mais severas.

Após consultas e exames realizados em diferentes cidades — incluindo Nova Andradina, Campo Grande, Dourados e São Paulo — o diagnóstico de Parkinson foi confirmado. Desde então, o controle da doença passou a depender de medicações utilizadas em intervalos de poucas horas ao longo do dia.

Segundo o paciente, a rotina passou a exigir mais esforço para atividades simples. Os medicamentos ajudam a controlar os sintomas, mas também provocam efeitos colaterais, como movimentos involuntários constantes. Em alguns momentos, quando o efeito da medicação diminui, ocorre o chamado estado “OFF”, quando o paciente consegue pensar no movimento, mas o corpo não responde.

Como funciona a cirurgia

A técnica utilizada no hospital é conhecida como estimulação cerebral profunda, indicada para casos específicos de Parkinson em que o tratamento medicamentoso já não consegue controlar adequadamente os sintomas motores.

De acordo com o neurocirurgião Eduardo Cintra Abib, responsável pelo procedimento, os eletrodos são implantados no núcleo subtalâmico, região do cérebro que participa do controle dos movimentos.

Durante a cirurgia, um eletrodo é implantado em cada hemisfério cerebral — estrutura responsável pelo controle do lado oposto do corpo. O procedimento exige que o paciente permaneça acordado em determinados momentos para que a equipe médica teste os estímulos e identifique o ponto exato que proporciona melhor resposta clínica.

Após o implante no cérebro, os eletrodos são conectados a um pequeno dispositivo semelhante a um marca-passo, instalado na região do peito. O aparelho envia impulsos elétricos que ajudam a regular a atividade cerebral relacionada aos movimentos.

A indicação para a cirurgia segue critérios clínicos rigorosos. Em geral, o procedimento é considerado para pacientes com pelo menos cinco anos de tratamento, que já utilizaram diferentes medicações e apresentam sintomas que não respondem mais de forma satisfatória à terapia convencional.

Além do neurocirurgião Eduardo Abib, participaram da cirurgia o médico Marco Aurélio Fernandes Teixeira, os anestesistas Ariane Freitas Neves e Walter Chimello Balhester, além dos profissionais de enfermagem Raisa Carvalho Batista e Felipe Gabriel Rocini Araújo.

Recuperação e acompanhamento

O procedimento foi realizado no dia 5 de março. Após a cirurgia, o paciente permaneceu um dia na Unidade de Terapia Intensiva (UTI) e mais dois dias em observação, recebendo alta hospitalar no dia 8 de março.

Nas próximas semanas, ele retornará ao hospital para a etapa de programação do dispositivo implantado, quando serão realizados os primeiros ajustes da estimulação elétrica. O sistema possui diferentes pontos de contato no eletrodo, permitindo direcionar a corrente para áreas específicas do cérebro de acordo com os sintomas predominantes de cada paciente, como tremores, rigidez muscular ou instabilidade postural.

Esperança de retomar a rotina

Para Gilberto, o procedimento representa a possibilidade de recuperar autonomia e retomar atividades que se tornaram difíceis nos últimos anos. Entre os planos estão voltar a viajar, pescar e realizar tarefas cotidianas sem depender constantemente das medicações.

A esposa, Elcia Oliveira Umbelino Barbieri, com quem o paciente é casado há 36 anos, acompanhou todo o processo de tratamento e também vê a cirurgia como uma nova etapa de esperança. Segundo ela, a família passou a evitar eventos sociais por receio de episódios de tremores ou rigidez em público, situação comum em estágios mais avançados da doença.

Marco para a saúde pública

Para o diretor técnico do Hospital Regional da Costa Leste Magid Thomé, Marllon Nunes, a realização do procedimento representa um avanço significativo para a assistência especializada no estado.

Segundo ele, oferecer uma cirurgia de alta complexidade como a estimulação cerebral profunda demonstra a capacidade técnica da unidade e reforça o papel do hospital como referência regional e estadual em tratamentos especializados, ampliando o acesso da população a tecnologias médicas de alta complexidade dentro do SUS.

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